Fi-la juntando a esmo a perfeição que encerra,
Fragmentada e dispersa, a beleza da terra...
Menotti Del Picchia
Eu era ainda adolescente
E a sonhar
Idealizei para mim
Uma mulher perfeita,
Tão bela e iluminada como a aurora,
De rosto lindo e olhos vivazes,
Mas românticos e cheios de mistério,
De pele macia e acetinada
E cabelos abundantes,
A emoldurar-lhe a face,
Em cascata descendo-lhe aos ombros
E de lábios rubros, sensuais,
A sugerir calientes beijos.
De corpo médio, esbelto e bem talhado,
Velado simplesmente
Com vestes a ressaltar-lhe o donaire
De uma modesta, franca, amiga
E cativante naturalidade.
Assim a imaginei e a retratei na mente
De maneira indelével, inapagável,
E fiquei a esperá-la na jornada
Que após e desde então
A vida à minha frente ensejo dava.
Mas não a esperei somente,
Procurei-a ansioso, obstinado,
Pelas praças e ruas das cidades,
No interior das escolas, nas calçadas
Nas esquinas das ruas, nas igrejas,
Nos festivais e festas
Nos bares e botecos
E até nos antros mais escusos!
Tudo em vão...
Nenhuma das mulheres que encontrei,
E foram tantas,
Ajustaram-se ao ideal modelo
Criado em minha mente,
Nem satisfizeram o alto padrão que idealizei.
Nenhuma!
O tempo foi passando,
E continua,
E eu a esperá-la...
Quando a mim virá essa mulher perfeita
Que virtualmente existe em minha mente?
O tempo, dia após dia, inexorável passa,
Ou seria eu que estou passando?
Os anos mais e mais pesam em meus ombros
E tornam lento meu andar,
Claudico,
Escasseiam-se-me na fronte os cabelos
E eu continuo ainda a esperá-la
E de tanto esperar, desesperado,
Espero-a ainda,
Pois em mim a esperança não se cansa.
Em meu obcecado pensamento
Embora passem décadas e anos
E aos poucos eu me acabe,
Ela, contudo, permanece esplêndida,
Adolescente jovial e grácil,
Esplendorosa mesmo!
Não envelhece nunca!
E eu que a busquei e a esperei em vão
Agora triste e inconsolável sei
Que nesse fatal e lamentável desencontro,
Ela, imutável, bela e jovem,
Pura e donzela como a concebi,
Quando eu me for afinal
Findar-se-á comigo...
getúlio garcia, o bom
Goiânia, 30/01/05.